Tuesday, October 4, 2011

em branco

E se eu fosse uma tela, folha ou pedra à espera de um autor? Custa-me esperar pelo sopro artístico ou por qualquer outra coisa. Tenho de prender o laisser faire, laisser passer a todo o custo, e desespero como diz o ditado, embrenho-me um mil e uma estratégias que não me deixo aplicar, diz a minha trave mestra. E eu, pendurada numa estante ou cavalete, vou tentando não deixar que o branco mude e sei que também este me contraria. Devo estar a cheirar a ontem. Devaneios. Contos de um livrinho azul, com uma dedicatória escrita em mim e para sempre fixada numa imagem. Olhar ligeiramente estrábico e o outrora negro dos cabelos quase longos. Pele estendida num sofá descansado, tapete de mim. Uns momentos apenas, revivo, sem me entramelar em novelos da ética ou de arrependimento. Tempos em que eu fui eu, mas ainda não o sabia. Deixo pousar o meu pensamento nesta almofada. E espero. E aperto os punhos sós. E abrigo-me do impossível, numa colcha de seda, toque de boémia. Por ti, autor.

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